Gibiteca de Curitiba é um celeiro de quadrinistas do Brasil, aponta pesquisa

A capital do Paraná tem uma biblioteca com 45 mil gibis e mangas de várias épocas, oferece.

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A capital do Paraná tem uma biblioteca com 45 mil gibis e mangas de várias épocas, oferece turmas ativas e cerca de 600 alunos e nas últimas décadas se transformou em celeiro de formação de quadrinistas no Brasil, segundo levantamento do Censo Nacional dos Profissionais de Quadrinhos e Humor Gráfico, realizado em 2025.

Nos anos 80, a capital do Paraná já aparecia como um potencial local de talentos nos quadrinhos, podemos citar Neri & Werneck, Claudio Seto, Paixão e Pancho, cada um com uma característica.

Jornalistas, poetas e músicas frequentaram a Gibiteca nos primeiros anos, como Fernando Tupan, Sergio Viralobos e Renato Guege, o local era um centro de inspiração para eles e um local para recarregar as energias.

De acordo com a pesquisa, a Gibiteca da capital está entre os centros de aprendizagem mais citados nacionalmente e é considerada um dos principais “celeiros” de quadrinhos na região sul, ao lado de Porto Alegre.

A vocação da Gibiteca para formar profissionais começou a ser desenhada nos anos 1970, antes mesmo de sua inauguração oficial em 1982. Nessa época, a editora Grafipar instalou-se na capital paranaense com a audaciosa missão de publicar histórias em quadrinhos nacionais. O sucesso editorial atraiu desenhistas e roteiristas de todo o Brasil para a cidade. Essa efervescência revelou uma urgência: era preciso um espaço para reunir esses desenhistas e inseri-los no mercado.

O arquiteto, artista e idealizador da Gibiteca, Key Imaguire Jr., recorda a energia daquele período: “Existia um movimento forte dos artistas gráficos brasileiros que queriam participar do mercado de histórias em quadrinhos. Era evidente que os nossos talentos tinham o direito de ocupar esse espaço”

Entretanto, o arquiteto pontua que, apesar da vontade de fazer a cena de quadrinhos acontecer, existiam muitos obstáculos, um deles era a falta de um lugar físico.

“Às vezes os artistas se reuniam na casa de alguém ou nas universidades, não tinha um lugar próprio. Por um tempo até emprestei o meu escritório de projetos, que era na casa dos meus pais”, relembra com humor.

Foi exatamente dessa carência de um local adequado para exposições, lançamentos e desenvolvimento profissional que surgiram os primeiros esboços da instituição. ‘Esse lugar, pensado para ser um ponto onde os artistas pudessem se desenvolver e se colocar no mercado, ainda não existia no Brasil, e talvez nem no mundo’, ressalta Key.

Unindo forças, Key Imaguire Jr. e Domingos Bongestabs — consagrado arquiteto responsável pela Ópera de Arame — desenharam o projeto que passou por muitas mudanças e adequações. Em 1982, a Gibiteca de Curitiba abriu as portas em uma sala da Galeria Schaffer. Seis anos depois, transferiu-se para o Centro Cultural Solar do Barão, consolidando-se como o ‘centro nervoso’ da produção artística curitibana e recebendo grandes nomes da cena nacional e internacional.

Atualmente, devido a reformas no Solar do Barão, a Gibiteca está funcionando em um casarão histórico na Rua São Francisco, 326, no Largo da Ordem, em frente à Casa da Memória, recebe exposições, palestras, aulas, encontros de RPG e até possui uma sessão de gibis raros.

O verdadeiro termômetro de sucesso da instituição vai além das estatísticas. No livro Narrativas Gráficas Curitibanas (disponível para consulta no próprio acervo), o premiado quadrinista local José Aguiar define a essência do espaço pela movimentação de seus frequentadores, que frequentemente passam de leitores para alunos, artistas profissionais e professores.

Ana Clara Viana Benitez, por exemplo, começou sua trajetória como aluna, atuou como estagiária e hoje compõe o quadro docente. Ela ministra aulas de aquarela e ilustração tradicional e, aos sábados pela manhã, ensina iniciantes a ganharem confiança em seus primeiros traços.

Fulvio Pacheco também é fruto direto dessa engrenagem. Ex-estagiário do espaço e antigo aluno de José Aguiar, ele hoje é um autor publicado e coordena a instituição. “Eu também tive vários alunos que acabaram se tornando autores, é um ciclo que vai se renovando”, conclui Pacheco.

O endereço mudou, mas o ritmo de capacitação segue intenso. O relatório de 2025 da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) traduz o impacto do espaço na formação de público e de profissionais:

24 turmas de 14 cursos práticos e teóricos operando nos turnos da manhã, tarde e noite;
608 alunos matriculados;
31 eventos e lançamentos realizados;
10 exposições sediadas, servindo de vitrine para os artistas locais;
25.027 visitantes recebidos ao longo do ano.

Quatro décadas após rabiscar os primeiros rascunhos do que viria a ser a Gibiteca, Key Imaguire resume o legado da instituição que ajudou a criar como ‘a filha que deu certo’. A aposta em construir um pilar de apoio, estudo e profissionalização entregou exatamente o que a classe artística precisava para existir. ‘Ela é muito mais do que sonhamos’’, conclui o idealizador.

Para o artista e atual coordenador da Gibiteca, Fulvio Pacheco, esse marco é o resultado de um trabalho contínuo, nutrido pela efervescente cena independente e pelas políticas de incentivo cultural do município. Ele ressalta que a vocação da cidade para as artes gráficas tem raízes históricas profundas.

“A produção de quadrinhos em Curitiba tem aproximadamente 210 anos. O primeiro quadrinho de que se tem registro se chamava Gaveta do Diabo e foi publicado em 1888”, conta Fulvio.

Lei de Incentivo
A formação na sala de aula deságua na publicação das obras. Para garantir que os novos talentos não fiquem apenas no rascunho, a profissionalização ganha um impulso decisivo por meio das políticas públicas. A FCC lança, anualmente, um edital específico de fomento que viabiliza a publicação de dez obras em quadrinhos. Como forma de democratizar o acesso à arte e formar novos leitores, a primeira tiragem física dessas obras é distribuída de forma gratuita para a população.

Essa injeção de recursos por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura atua como uma vitrine. Segundo Fulvio Pacheco, o edital tem um papel crucial não apenas em publicar os alunos e artistas locais, mas em divulgar a qualidade do trabalho local:

“A produção de quadrinhos de Curitiba é muito famosa nacionalmente. Onde você vai todo mundo conhece, já viu nosso material, conhece os artistas e tem a curiosidade de conhecer a Gibiteca”, destaca o coordenador.

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Fonte:Paraná Jornal

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