Sua gordura mudou de endereço

Na menopausa, a balança sobe pouco e a cintura muda muito — e um achado recente sugere.

WhatsApp
Facebook
Twitter
Print

Na menopausa, a balança sobe pouco e a cintura muda muito — e um achado recente
sugere que hormônio e emagrecimento conversam mais do que se imaginava.
Você não mudou nada. A comida é a mesma, a caminhada é a mesma, a balança quase
não se mexeu. Mas a calça que fechava em abril não fecha em setembro, e a barriga
parece ter vindo de outra pessoa. Não é preguiça. É endereço.
O que a queda do estrogênio faz não é exatamente criar peso do nada: é realocá-lo. A
gordura que antes se distribuía nos quadris passa a se depositar no abdômen, em volta
dos órgãos — a chamada gordura visceral, a que mais cobra caro do açúcar no sangue,
da pressão e do fígado. Ao mesmo tempo, a massa muscular cai e o corpo tende a gastar
menos em repouso. Três mudanças simultâneas, e nenhuma delas aparece no número da
balança.
Que isso é metabólico, e não moral, a evidência sustenta. Na Women’s Health Initiative,
publicada no JAMA em 2013 — o mesmo grande ensaio randomizado que popularizou
o medo dos hormônios —, o grupo que recebeu estrogênio com progestagênio teve
menos casos novos de diabetes tipo 2 do que o grupo placebo. Ensaio randomizado, não
impressão clínica. O hormônio não mexe só com calor e sono: mexe com a forma como
o corpo lida com glicose e gordura.
Daí vem a pergunta que chega ao consultório toda semana. A tirzepatida mudou o
tratamento da obesidade — no estudo publicado no The New England Journal of
Medicine em 2022, com mais de 2.500 adultos com sobrepeso ou obesidade, a perda
média na dose mais alta chegou a cerca de 20% do peso em 72 semanas. Mas e a mulher
que já esta na menopausa?
O achado que raramente vira manchete: pesquisadores da Mayo Clinic acompanharam
120 mulheres na pós-menopausa em uso de tirzepatida e compararam quem também
fazia terapia hormonal com quem não fazia. Em 15 meses, o primeiro grupo perdeu
cerca de 35% a mais — o equivalente a cinco pontos percentuais de peso corporal a
mais, não 35 quilos. O trabalho saiu em 2026 no The Lancet Obstetrics, Gynaecology &
Women’s Health. Sono melhor, menos ondas de calor e mais disposição para treinar
podem explicar boa parte do efeito.
O que isso muda na prática é a conversa, não a receita. Terapia hormonal não é remédio
para emagrecer, e ninguém deve iniciá-la com esse objetivo. A indicação continua
sendo sintoma, qualidade de vida e proteção de longo prazo, dentro da janela de tempo e
do perfil de risco de cada mulher. O que esses dados sugerem é que tratar a menopausa e
tratar o peso não são dois assuntos paralelos: são o mesmo terreno, e separá-los em duas
consultas talvez seja parte do que vem atrapalhando você.
Se a sua gordura mudou de endereço nos últimos anos, você não está imaginando
coisas. Vale sentar-se com um médico que conheça esses estudos e olhar os dois
assuntos juntos, na mesma consulta.
Dra. Mariana Halla — médica especialista em saúde feminina, menopausa e
longevidade. 18/05/2026

PUBLICIDADE

Relacionadas: