Os desafios de instalar e manter data centers subterrâneos

A expansão dos data centers se tornou um dos custos ambientais e urbanos associados ao avanço acelerado.

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A expansão dos data centers se tornou um dos custos ambientais e urbanos associados ao avanço acelerado da inteligência artificial. Essas instalações são indispensáveis para processar e armazenar a enorme quantidade de dados exigida pelos sistemas modernos de IA, mas também geram impactos que afetam diretamente as comunidades próximas. O ruído produzido pelos equipamentos pode ser ouvido a distâncias consideráveis, chegando, em determinadas condições, a mais de 1 quilômetro.

Novos complexos podem aumentar a demanda sobre a infraestrutura elétrica local, elevar os custos dos serviços públicos, ocupar grandes áreas de terreno e consumir volumes significativos de água, especialmente em sistemas que utilizam água para resfriamento. Diante desses problemas, uma solução parece óbvia: construir os data centers no subsolo. Em teoria, isso reduziria boa parte dos impactos visíveis e sonoros. Na prática, porém, a ideia é muito mais complicada.

O principal problema está no custo e na complexidade da construção. Em situações convencionais, uma instalação subterrânea precisa ser projetada para suportar o peso de toda a camada de solo e rocha acima dela. Isso exige estruturas muito mais resistentes do que as utilizadas em um edifício convencional, além de escavação, perfuração, isolamento e impermeabilização. Em alguns casos, a própria construção exigiria operações de detonação ou remoção de grandes volumes de rocha.

A expansão também se tornaria mais difícil. Enquanto um data center construído na superfície pode ser ampliado relativamente rápido com novos módulos ou edifícios, uma instalação subterrânea pode exigir novas escavações e obras estruturais antes que qualquer equipamento adicional seja instalado.

Há situações excepcionais em que esse tipo de construção pode fazer sentido por razões de segurança. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, já consideraram medidas como reforçar instalações de data centers e construir algumas delas no subsolo diante dos riscos associados a possíveis ataques iranianos.

Nesse contexto, a estrutura subterrânea não seria necessariamente escolhida porque representa a alternativa mais econômica ou eficiente, mas porque pode oferecer uma camada adicional de proteção. Fora de cenários desse tipo, entretanto, o custo adicional precisaria ser justificado por alguma vantagem operacional muito significativa.

Um dos maiores obstáculos está justamente em algo que normalmente passa despercebido: o ar. Um data center abriga milhares de equipamentos eletrônicos que produzem calor continuamente. Em uma instalação subterrânea, controlar temperatura, umidade e qualidade do ar pode ser muito mais complicado.

A ventilação precisa retirar o calor gerado pelos equipamentos e, ao mesmo tempo, manter condições estáveis para evitar condensação, corrosão e outros problemas que poderiam comprometer os componentes eletrônicos. Isso exige sistemas de ventilação, refrigeração e controle de umidade sofisticados, aumentando ainda mais os custos de construção e operação.

Apesar disso, o ambiente subterrâneo apresenta uma vantagem importante. Como não recebe diretamente a radiação solar, uma instalação desse tipo pode reduzir parte da carga térmica associada ao ambiente externo. Dependendo da localização e da geologia, também pode ser possível utilizar energia geotérmica ou sistemas de troca de calor com o solo.

O princípio é relativamente simples: em determinadas profundidades, a temperatura do terreno sofre menos variações do que a do ar na superfície, criando condições mais estáveis para sistemas de climatização. Isso pode reduzir parte da energia necessária para manter os equipamentos em condições adequadas, embora não elimine a necessidade de refrigeração.

É justamente por isso que existe uma alternativa mais interessante do que construir um data center subterrâneo do zero: aproveitar estruturas subterrâneas que já existem. Em vez de escavar uma enorme instalação especialmente para servidores, empresas podem adaptar minas abandonadas e outras estruturas subterrâneas para receber equipamentos de computação.

Nesse cenário, parte dos problemas mais caros da construção já foi resolvida pela própria estrutura existente. Algumas minas também apresentam condições ambientais favoráveis, com temperaturas relativamente estáveis e níveis de umidade que podem ser adequados para instalações desse tipo.

Há exemplos de data centers instalados em antigas minas nos Estados Unidos, mostrando que o conceito pode funcionar na prática. Além de aproveitar uma estrutura que já existe, essas instalações podem se beneficiar da própria profundidade como uma camada adicional de proteção física. O problema é encontrar locais que reúnam todas as condições necessárias.

Uma mina pode apresentar temperatura e umidade adequadas, mas estar distante de uma fonte de eletricidade de grande capacidade ou não possuir as conexões de rede necessárias para transmitir enormes volumes de dados. Construir toda essa infraestrutura adicional pode eliminar parte da vantagem econômica obtida com o aproveitamento da mina.

O mesmo princípio ajuda a explicar por que outras alternativas aparentemente óbvias também não resolveram o problema. A Antártida, por exemplo, possui temperaturas naturalmente baixas durante grande parte do ano, o que à primeira vista parece extremamente conveniente para instalações que precisam dissipar grandes quantidades de calor.

Porém, o continente é remoto, possui infraestrutura limitada e não dispõe de uma rede elétrica convencional capaz de atender facilmente a um grande complexo de data centers. Seria necessário transportar equipamentos, construir sistemas de energia e estabelecer conexões de comunicação, criando uma série de problemas logísticos que poderiam superar os benefícios proporcionados pelo clima.

A questão é menos sobre descobrir um lugar perfeito para esconder os data centers e mais sobre encontrar uma combinação economicamente viável entre energia, refrigeração, conectividade, segurança, disponibilidade de terreno e impacto ambiental. Construir na superfície continua sendo, na maioria dos casos, mais simples e barato.

Colocar os servidores no subsolo pode reduzir determinados impactos, mas transfere parte do problema para a engenharia da estrutura, para a ventilação e para os custos de expansão. Aproveitar instalações subterrâneas já existentes parece uma alternativa mais realista, mas depende de encontrar locais que também estejam próximos das redes elétricas e de comunicação necessárias.

Em um cenário ideal, a preservação de recursos naturais teria um peso maior na escolha desses locais do que simplesmente o custo de construção. Na realidade, porém, empresas precisam justificar investimentos que podem custar muito mais do que a construção de um complexo convencional. Enquanto alternativas subterrâneas, instalações em minas, soluções geotérmicas e outras propostas não conseguirem competir economicamente com a construção tradicional, a expansão dos data centers continuará ocorrendo principalmente na superfície.

Por enquanto, portanto, o avanço da inteligência artificial ainda vem acompanhado de um problema que não tem uma solução simples: encontrar espaço, energia e água suficientes para sustentar a infraestrutura necessária sem transferir seus custos para as comunidades e para o meio ambiente.

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Fonte:Paraná Jornal

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