A possível viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos pode aumentar a tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos, em um momento de desgaste entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. Fontes do Itamaraty avaliam que a permanência do parlamentar em território norte-americano não deve alterar diretamente as negociações comerciais, mas especialistas em relações internacionais alertam para o risco de escalada diplomática caso o caso envolva medidas judiciais brasileiras e eventual pedido de extradição.
O doutor em Ciências Políticas e Sociais e diretor do Ibmec Brasília, Ricardo Caichiolo, avalia que uma recusa do governo Trump em entregar o senador às autoridades brasileiras poderia aprofundar o impasse. "A entrada nos EUA com cidadania europeia é válida, mas fugir de ordens do Supremo transforma o cenário em um conflito institucional. Se o Brasil pedir sua extradição e Donald Trump optar por ignorar a solicitação, repetindo o comportamento adotado com os demais, a relação bilateral mantém-se tensa", afirma. Ele também aponta que a permanência de brasileiros investigados pela Justiça no exterior pode alimentar o discurso de perseguição política. "O governo americano reforça a narrativa de que a oposição sofre perseguição política, buscando desgastar a imagem do país no exterior", completa.
As relações comerciais e institucionais entre os dois países atravessam um período de tensão desde a ascensão de Donald Trump à Casa Branca, com divergências políticas, medidas comerciais e sanções contra autoridades brasileiras. Em 2025, as medidas tarifárias adotadas pelo governo Trump reduziram a competitividade e o acesso de produtos brasileiros nos EUA. Apesar disso, os parceiros mantêm canais de comunicação sobre negócios, investimentos e assuntos internacionais.
Questões ideológicas também afastaram Lula e Trump. O mandatário norte-americano não telefonou para parabenizar o presidente reeleito e insinuou uma possível fraude na eleição presidencial. Nesse contexto, o advogado Vinícius Bicalho explica que uma eventual acolhida de Flávio Bolsonaro nos EUA poderia ser interpretada em Brasília como sinal de apoio à narrativa de perseguição política. "Trump rompeu uma tradição de mais de duas décadas ao não ligar para parabenizar o presidente eleito, e o governo americano já adotou tarifas e sanções contra autoridades brasileiras. Receber Flávio seria lido em Brasília como um aval americano à tese de perseguição", diz.
Bicalho, no entanto, considera que as divergências não significam necessariamente intenção de romper as relações diplomáticas. "Trump fez questão de dizer que não governa o Brasil e que tem boa relação com Lula. Isso indica que Washington quer pressionar, não romper", avalia.