Os fã-clubes, conhecidos como fandoms, tiveram papel de destaque nas eleições de 2026. Grupos dedicados a artistas como Beyoncé, BTS e Lady Gaga impulsionaram manifestações e receberam agradecimento público de Lula (PT), vencedor do pleito. Após o primeiro turno, em 4 de outubro, um fã-clube de Billie Eilish ofereceu apoio à campanha do petista, desencadeando uma articulação inédita: comunidades produziram conteúdos, foram às ruas e deixaram as notícias sobre os ídolos em segundo plano para se dedicar à política.
A mobilização ajudou a impulsionar um dos primeiros grandes atos em apoio a Lula, na Avenida Paulista, em 11 de outubro. Organizada por associações estudantis, a manifestação contou com a divulgação dos fandoms. No trio elétrico, o petista reconheceu a participação dos grupos: “Fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês”.
Para dimensionar o alcance do fenômeno, o Laboratório Cultpop, dedicado à pesquisa sobre cultura pop, mobilizou pesquisadores de oito universidades para analisar 6,5 mil publicações em diferentes plataformas. O levantamento identificou nove tendências que ajudam a explicar como os fã-clubes transformaram o engajamento político. Entre os destaques estão o identitarismo, com as eleições de 2026 apontadas como as mais identitárias já realizadas no país, e o protagonismo de mulheres e pessoas LGBT+ na administração dos fã-clubes. “A própria Katy Perry é uma artista que se posiciona politicamente desde sempre, então como fãs conscientes (que fazem parte da comunidade LGBTQ+) e principalmente por eu ser resultado de políticas públicas, fomos atrás desse apoio à campanha do Lula”, mencionou Simon Diego, membro do Portal Katy Perry.
A presença dos fandoms também ganhou as ruas. Em manifestações pró-Lula, não era raro encontrar cartazes com referências diretas a cantoras como Beyoncé e Lady Gaga. Após o primeiro turno, o movimento Fandoms com Lula reuniu admiradores de cerca de 70 artistas nacionais e internacionais. Embora outros nichos, como fãs de heróis e séries, também tenham participado, a pesquisa identifica as comunidades musicais como protagonistas da mobilização política digital. A cultura geek, predominantemente masculina e conservadora, também contou com apoiadores de Lula, que transformaram referências de jogos e quadrinhos em ferramentas de comunicação eleitoral.
A pesquisa também aponta mudanças na relação de parte dos eleitores de esquerda com a inteligência artificial. Antes críticos ao uso da tecnologia, alguns grupos passaram a recorrer a ferramentas generativas para criar conteúdos que retratavam Lula e Flávio Bolsonaro como personagens de novelas, reality shows e artistas pop. “Se antes a esquerda abominava o uso de IA generativa, agora se apropriam das ferramentas e das linguagens para propagar conteúdos também com viés humorísticos e ocupar espaços que tradicionalmente eram ocupados com maestria pela extrema direita que, há anos vem utilizando as brechas das plataformas e da cultura digital”, explica Eloy Vieira, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). O estudo também ressalta a memória afetiva como ferramenta de mobilização, com Fãs de Star Wars apontando paralelos entre vilões da saga e Flávio Bolsonaro (PL), e a continuidade do ativismo, que já havia se manifestado em 2022 com a campanha Fandoms Pelo Voto, que mobilizou jovens de 16 a 18 anos a tirar o título de eleitor, e em ações como o Fandoms Pela Amazônia.