Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriram uma proteína que pode se tornar um importante alvo terapêutico no combate ao câncer. A proteína, chamada sindecam-4 ou SDC4, está presente na superfície das células e está relacionada à sobrevivência de células tumorais agressivas após se desprenderem dos tecidos. Essa condição contribui para o desenvolvimento de metástases. Os achados foram publicados na revista científica Cytotechnology e divulgados pela Agência FAPESP nesta semana.
A SDC4 desempenha papéis vitais na adesão celular em condições normais. No entanto, sua superexpressão está associada ao crescimento e à progressão tumoral. A professora Carla Cristina Lopes, do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e uma das autoras do estudo, explica que essa proteína protege as células tumorais de um tipo específico de morte celular que ocorre quando as células se soltam dos tecidos.
Para compreender o funcionamento da SDC4, a equipe de pesquisa utilizou células endoteliais de coelhos em cultura. Observou-se que a maioria não sobreviveu ao serem mantidas soltas, mas menos de 5% das células que resistiram passaram a produzir quantidades elevadas de SDC4, adquirindo características mais agressivas.
Na sequência, os cientistas aplicaram engenharia genética para silenciar o gene que produz a SDC4. Essa intervenção resultou em dois efeitos: a ativação da produção de uma molécula chamada p27, que é um inibidor natural da divisão celular, e o reequilíbrio na produção de ciclinas e CDKs, que são responsáveis pelo controle do ciclo celular.
A professora Lopes destacou que a SDC4 pode se transformar em um alvo terapêutico promissor e servir como um marcador diagnóstico para monitorar a progressão dos tumores. A estratégia de silenciar essa proteína tem potencial para inibir a proliferação de células cancerosas, embora os pesquisadores ainda estejam em estágios iniciais e precisem validar os resultados em casos específicos.
O grupo de pesquisa também investiga a possibilidade de utilizar o canabidiol, ou CBD, um composto não psicoativo da cannabis, para modular a SDC4 e reverter o comportamento maligno das células resistentes. A pesquisa ainda está em suas fases iniciais, e os resultados precisam ser confirmados em células humanas e modelos animais antes de qualquer aplicação clínica.

