Michael Brown procurou o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos em busca de informações sobre seu seguro-desemprego e se deparou com uma revelação surpreendente: ele tinha uma carreira que nunca viveu. Durante a consulta, uma funcionária do departamento encontrou registros de empregos em diversos estados, levando-a a questionar se Brown realmente trabalhava em todos aqueles lugares. Ele respondeu que, nos últimos dois anos, esteve empregado na mesma empresa.
Ao receber a documentação, Brown se deparou com nomes de empresas desconhecidas e estados onde nunca havia trabalhado. Em tom de humor, comentou sobre a impossibilidade de se teletransportar para ocupar tantas funções ao mesmo tempo, conforme relatado em uma entrevista ao jornal The Wall Street Journal. Os documentos revelaram que Brown estava supostamente empregado em nove companhias, somando cerca de US$ 100 mil em rendimentos que nunca recebeu. Para piorar, descobriram que alguém havia até aberto um plano de aposentadoria em seu nome.
Enquanto o verdadeiro Michael Brown seguia sua vida normalmente, outra pessoa se apresentava em reuniões de trabalho, interagia com recrutadores e atuava na área de programação utilizando seu nome. Essa situação faz parte de uma operação que transforma o mercado de trabalho remoto em uma fonte de renda para a Coreia do Norte. O Wall Street Journal conduziu uma investigação de um ano, que revelou uma equipe de trabalhadores de tecnologia associada ao regime de Kim Jong-un. Por meio de dados obtidos dos computadores do grupo, foram encontrados históricos de navegação, e-mails, identidades roubadas e gravações de tela de reuniões e entrevistas.
A partir desses registros, o jornal seguiu o rastro de uma equipe liderada por um indivíduo identificado pelo codinome Eagle Vision. Em vídeos coletados, três homens se apresentavam como Lucas Lee, Patrick New e Michael Brown. As investigações mostraram que esses indivíduos também gerenciavam outras identidades simultaneamente. O processo de busca por emprego funcionava como uma linha de produção, onde diferentes membros da equipe eram responsáveis por funções específicas: elaboração de currículos, criação de cartas de apresentação, participação em entrevistas e execução do trabalho após a contratação.
Esse esquema de trabalho remoto gerado pela Coreia do Norte é estimado em cerca de US$ 800 milhões anualmente, fornecendo recursos para financiar os programas nuclear e de mísseis do país. O funcionamento dessa operação envolve o uso de contas bancárias em outros países, intermediários, criptomoedas e uma rede de lavagem de dinheiro. Analisando o histórico de navegação do codinome Eagle Vision, o jornal localizou uma carteira de criptomoedas utilizada para realizar pagamentos, revelando conexões com uma rede financeira que inclui carteiras envolvidas em transações com uma empresa sancionada pelos EUA por sua participação no programa armamentista de Pyongyang.
Ainda sem ter plena consciência da extensão do uso de seu nome, Michael Brown relatou que enfrenta dificuldades para abrir contas bancárias e alugar imóveis. Ele questionou: "Você viu os empregos que supostamente tive e quanto dinheiro eles ganharam? Alguém está vivendo como eu agora."

