Durante gerações, a ciência considerou a incapacidade de regenerar partes perdidas do corpo como uma das principais limitações dos seres humanos e de outros mamíferos. Enquanto animais como salamandras e axolotes conseguem reconstruir membros inteiros, os mamíferos normalmente respondem às lesões formando tecido cicatricial. No entanto, uma nova pesquisa sugere que a capacidade regenerativa pode não ter sido completamente perdida nos mamíferos. Em vez disso, ela poderia estar escondida nos próprios mecanismos naturais de cicatrização do organismo, aguardando apenas os estímulos adequados para ser ativada.
Segundo o pesquisador Ken Muneoka, professor do Departamento de Fisiologia e Farmacologia Veterinária, a questão sobre por que alguns animais conseguem regenerar estruturas complexas enquanto os seres humanos não possuem essa habilidade intriga os cientistas desde a época de Aristóteles. Ao longo de décadas de trabalho, ele se dedicou a compreender essa diferença.
Em um estudo, Muneoka e seus colaboradores descreveram uma estratégia de tratamento em duas etapas que permitiu a regeneração de ossos, articulações, ligamentos e outros tecidos conjuntivos. Embora as estruturas reconstruídas não tenham sido réplicas perfeitas das originais, os pesquisadores acreditam que a abordagem poderá, no futuro, reduzir a formação de cicatrizes e melhorar significativamente a recuperação após amputações e outros tipos de lesão.
Normalmente, quando um mamífero sofre um ferimento, o organismo desencadeia um processo chamado fibrose. Durante essa resposta, células conhecidas como fibroblastos atuam rapidamente para fechar a ferida e produzir tecido cicatricial. Essa reação é essencial para evitar infecções e impedir danos maiores, mas acaba limitando a capacidade do corpo de reconstruir os tecidos perdidos.
Em espécies capazes de regenerar membros, como as salamandras, ocorre um processo diferente. Nessas espécies, células semelhantes aos fibroblastos se agrupam em uma estrutura denominada blastema, uma espécie de centro organizador que funciona como a base para o crescimento de novos tecidos.
Os pesquisadores compararam esse comportamento a uma encruzilhada biológica: as células poderiam seguir o caminho da cicatrização ou o da regeneração. A pesquisa teve justamente como objetivo modificar a resposta dos fibroblastos já presentes na região lesionada, redirecionando-os para um padrão mais próximo do observado em animais regenerativos.
Para investigar essa possibilidade, os cientistas desenvolveram um tratamento utilizando dois fatores de crescimento já conhecidos pela medicina. O primeiro deles foi o fator de crescimento de fibroblastos 2, conhecido pela sigla FGF2. Esse composto foi aplicado somente após a ferida já ter cicatrizado inicialmente, permitindo que o organismo realizasse sua resposta normal antes da intervenção. O objetivo era alterar os eventos que acontecem após a formação inicial da cicatriz.
A ação do FGF2 estimulou a formação de uma estrutura semelhante ao blastema, algo que normalmente não ocorre em mamíferos após esse tipo de lesão. Alguns dias depois, os pesquisadores aplicaram um segundo fator de crescimento chamado proteína morfogenética óssea 2, ou BMP2. Essa substância enviou sinais para que as células começassem a construir novos tecidos. De acordo com Muneoka, trata-se de um processo em duas etapas: primeiro é preciso desviar as células da formação de cicatrizes e, em seguida, fornecer os comandos biológicos que indicam o que deve ser reconstruído.
Um dos resultados mais importantes do estudo foi a demonstração de que a regeneração pode não exigir a introdução de células-tronco vindas de fora do organismo, estratégia amplamente estudada pela medicina regenerativa. Segundo os pesquisadores, as células necessárias já estão presentes no corpo. O desafio consiste em aprender a controlar seu comportamento e direcioná-las para a reconstrução dos tecidos.
Outro participante da pesquisa, o professor Larry Suva, destacou que os resultados desafiam ideias estabelecidas há muito tempo sobre as limitações das células dos mamíferos. Segundo ele, a capacidade regenerativa não está ausente, mas sim mascarada ou adormecida.
Os cientistas também encontraram evidências de um fenômeno chamado reespecificação posicional. Em termos simples, isso significa que determinadas células podem ser instruídas a construir tecidos diferentes daqueles para os quais originalmente estariam destinadas. Esse mecanismo é fundamental durante o desenvolvimento embrionário e pode desempenhar um papel importante nos processos regenerativos.
Nos experimentos, os pesquisadores conseguiram restaurar todas as estruturas principais removidas durante a amputação, incluindo os ossos, tendões, ligamentos e componentes articulares. As regiões regeneradas apresentaram elementos esqueléticos e tecidos conjuntivos organizados de forma semelhante à anatomia natural. Embora as estruturas ainda não sejam idênticas às originais em todos os detalhes, elas reproduzem aquilo que seria esperado para aquele nível de lesão.
Os resultados indicam ainda que a regeneração é um processo extremamente complexo e depende da atuação coordenada de múltiplos mecanismos biológicos. Em outras palavras, a reconstrução de tecidos não parece ser resultado da ativação de um único gene ou de uma única substância, mas de uma interação sofisticada entre diferentes sinais celulares.
Embora a pesquisa ainda esteja em fases iniciais, os cientistas acreditam que suas descobertas poderão trazer benefícios práticos antes mesmo que a regeneração completa de membros humanos se torne possível. Um dos potenciais usos seria melhorar a qualidade da cicatrização, reduzindo a quantidade de tecido fibroso e promovendo uma recuperação mais eficiente após traumas e cirurgias.
Além disso, o caminho para futuras aplicações clínicas pode ser menos complexo do que em outras terapias experimentais. A proteína BMP2 já possui aprovação para algumas utilizações médicas específicas, especialmente em tratamentos ósseos, enquanto o FGF2 vem sendo estudado em diversos ensaios clínicos voltados à regeneração e à cicatrização.
As descobertas reforçam uma visão crescente entre os pesquisadores de que a capacidade regenerativa dos mamíferos talvez não tenha desaparecido ao longo da evolução. Em vez disso, ela pode permanecer latente, sendo normalmente suprimida pelos mecanismos convencionais de cicatrização. A possibilidade de reativar esse potencial representa uma mudança significativa na forma como a ciência enxerga os limites do organismo humano.
Para os pesquisadores envolvidos, os resultados abrem caminho para uma nova geração de estudos sobre regeneração. Mais do que demonstrar uma curiosidade biológica, o trabalho oferece um modelo experimental capaz de orientar futuras investigações sobre como estimular o corpo humano a reconstruir tecidos complexos, aproximando uma possibilidade que durante muito tempo pertenceu apenas ao universo da ficção científica. Embora ainda haja muitos desafios pela frente, os cientistas acreditam que compreender e controlar esses mecanismos poderá transformar o tratamento de amputações, lesões graves e doenças degenerativas nas próximas décadas.
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Fonte:Paraná Jornal

