“SAMU não é mercadoria”: Conselho de Saúde enfrenta Prefeitura e denuncia risco de escândalo milionário em São José dos Pinhais

Em uma reunião tensa na noite da última quarta-feira (11), o Conselho Municipal de Saúde de São.

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Reunião do Conselho de Saúde realizado na última quarta-feira (11) (Foto: Dennis Migliorini)
Reunião do Conselho de Saúde realizado na última quarta-feira (11) (Foto: Dennis Migliorini)

Em uma reunião tensa na noite da última quarta-feira (11), o Conselho Municipal de Saúde de São José dos Pinhais (CMS/SJP) colocou em pauta o que promete ser a maior dor de cabeça da gestão municipal em 2026: a denúncia sobre a terceirização do SAMU. A 106ª Reunião Ordinária, realizada no auditório da Central de Treinamento e Desenvolvimento, foi marcada por duras críticas à falta de transparência e pelo alerta de que o processo pode ligar a cidade a um esquema de desvios que já levou um prefeito da região para a cadeia. A suspeita que ronda os bastidores é a de que a mesma empresa envolvida no escândalo da “Fake Care” em Fazenda Rio Grande esteja de olho no contrato de R$ 33,2 milhões em São José dos Pinhais.

Licitação relâmpago e falta de informação acendem alerta

De acordo com o edital do Consórcio Metropolitano de Serviços do Paraná (COMESP), o pregão para a contratação das empresas que vão operar três Unidades de Suporte Avançado (USA) e seis Unidades de Suporte Básico (USB) está marcado para o próximo dia 20 de fevereiro . Durante a reunião, o presidente do CMS, Fabrício Alves Tambolo, expôs a fragilidade do órgão: “O Conselho não detém as informações acerca da terceirização. Algo que agora, sobre os olhos do Ministério Público do Trabalho, somos intimados a acompanhar”, afirmou. O MPT já havia expedido o Despacho n.º 278531.2025 cobrando respostas, e o clima entre os conselheiros é de que a administração municipal está tocando o processo “a toque de caixa”, sem diálogo com os trabalhadores.

A sombra de Fazenda Rio Grande

O grande fantasma que paira sobre a mesa do CMS é o fantasma da “Operação Fake Care”. Em outubro de 2025, o prefeito de Fazenda Rio Grande, Marco Marcondes (PSD), foi preso em um esquema que desviou mais de R$ 10 milhões dos cofres da saúde por meio de contratos fraudulentos com a empresa AGP Saúde . O modus operandi, segundo o Ministério Público, envolvia contratações direcionadas e pagamento de propina flagrado por câmeras dentro do condomínio do prefeito . A preocupação dos conselheiros de São José dos Pinhais é que o modelo criminoso, que segundo a denúncia do MP foi replicado em oito cidades do Paraná, esteja sendo reapresentado agora na Região Metropolitana. “Nós não podemos deixar os nossos profissionais, são pessoas qualificadas. Nós temos aqui dentro do SAMU pessoas que são professores dentro da especialidade de Urgência e Emergência. É uma responsabilidade nossa enquanto município”, desabafou a conselheira Dona Antônia durante entrevista ao Decola News.

Trabalhadores acuados e população na rua

A insatisfação já transbordou para as ruas. No último dia 6 de fevereiro, servidores do SAMU e o Sindicato dos Servidores Municipais (Sinsep) realizaram um ato em frente à Secretaria Municipal de Saúde. A mobilização denunciava não apenas a terceirização, mas a postura da Prefeitura, que cancelou uma reunião previamente agendada para tratar do futuro dos 100 trabalhadores que podem ser demitidos caso a empresa vencedora não os absorva . A presidente do Sinsep, Samia Leiza, foi incisiva: “Terceirizar o SAMU é precarizar os trabalhadores e colocar a população em risco” . Durante a reunião do Conselho, o tom foi de desabafo. “Se a gente se calar, vai que um dia a gente não tem mais nada. Vai que um dia nós estamos com tudo terceirizado”, completou Dona Antônia.

O rombo da transparência

Além do medo do escândalo, há o mistério dos valores. Investigações apontam que, embora o contrato global seja de R$ 33,2 milhões, o edital não detalha o quanto São José dos Pinhais paga efetivamente pelas ambulâncias avançadas (USA) que dividem o custeio com Agudos do Sul e Tijucas do Sul . Na prática, a população e os vereadores não conseguem fiscalizar o rateio, e o Conselho de Saúde reclama que não recebeu sequer as planilhas detalhadas. “O Conselho não desconhece as informações, ele não detém as informações”, rebateu Tambolo, evidenciando o apagão de dados.

O que vem pela frente?

Agora, a Comissão de Fiscalização do CMS, agora sob relatoria do conselheiro Isauro, promete um pente-fino. “Vamos pedir informação, será que dá? Não dá. Não tem nenhum. Está ficando de forma mais clara e objetiva”, criticou. O Conselho aprovou o acompanhamento ostensivo do processo, e uma nova reunião extraordinária já está agendada para 25 de fevereiro para tratar do 3º RDQA e, claro, da terceirização. Enquanto isso, a comunidade aguarda o dia 20 de fevereiro, data da licitação, para saber se o nome da AGP Saúde — ou de suas “filiais” — vai aparecer na disputa. Se depender do Conselho Municipal de Saúde, a resposta já está dada: “O SAMU é nosso e a gente vai lutar até o último minuto para que não haja terceirização”, finalizou Dona Antônia.

Assista a entrevista com os conselheiros:

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