Nunca tivemos tanto acesso a informações sobre alimentação. Nas redes sociais, dietas, suplementos e alimentos considerados milagrosos disputam nossa atenção diariamente. Ainda assim, obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares continuam representando importantes desafios para a saúde pública. Como explicar esse paradoxo?
A resposta começa quando entendemos que conhecer os benefícios de uma alimentação saudável não significa conseguir colocá-la em prática.
A rotina acelerada, o estresse, a falta de tempo para cozinhar e a facilidade de acesso aos produtos ultraprocessados transformaram nossa relação com a comida. Muitas pessoas passam o dia substituindo refeições por lanches rápidos e chegam à noite com fome intensa, cansaço e pouca disposição para preparar uma refeição.
O problema não está apenas na quantidade de calorias consumidas, mas também na qualidade dos alimentos que ocupam espaço no nosso prato.
Produtos ultraprocessados frequentemente apresentam grandes quantidades de açúcar, sódio e gorduras, enquanto oferecem poucas fibras e outros nutrientes importantes. Seu consumo elevado está associado a maior risco de obesidade e diversas doenças crônicas.
Além disso, uma alimentação pobre em fibras pode comprometer o funcionamento intestinal e a diversidade da microbiota, conjunto de microrganismos que participam de processos relacionados à digestão, ao metabolismo e à regulação imunológica.
Entretanto, seria simplista responsabilizar exclusivamente as escolhas individuais. O preço dos alimentos, a publicidade, as condições de trabalho e o acesso a opções saudáveis também influenciam diretamente o que chega à mesa das famílias brasileiras.
Outro obstáculo é o excesso de informações contraditórias. Enquanto algumas pessoas cortam os carboidratos, outras retiram glúten ou lactose sem necessidade clínica. Há ainda quem invista em suplementos caros, mas continue negligenciando refeições básicas.
Nesse cenário, o essencial acaba perdendo espaço para soluções aparentemente rápidas.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, oferece uma orientação que permanece atual: priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e evitar os ultraprocessados.
Na prática, isso significa valorizar combinações simples, como arroz, feijão, legumes, verduras, frutas, ovos e outras fontes de proteínas. Também significa planejar compras, organizar refeições e construir uma rotina alimentar compatível com a realidade de cada pessoa.
Não precisamos transformar a alimentação em uma sequência interminável de proibições. Precisamos compreender que saúde é construída pela repetição de hábitos, e não por intervenções extremas realizadas durante poucos dias.
Às vésperas do Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, vale uma reflexão: de que adianta saber tanto sobre nutrientes se estamos perdendo a capacidade de cuidar da nossa alimentação cotidiana?
A informação pode despertar a consciência, mas são as condições de acesso e os hábitos sustentados ao longo do tempo que transformam a saúde.
Angelica Zordan — Nutricionista Esportiva e Gastroenterologia | CRN 87715/P