Alguns cientistas estão investigando uma possibilidade que pode mudar a maneira como entendemos a relação entre o ambiente e o sono: a temperatura talvez tenha um papel tão importante quanto a luz na regulação dos relógios biológicos do organismo.
O antropólogo Gandhi Yetish ainda se lembra do ritual que adotava quando era criança durante os invernos frios. Antes de dormir, ele abria a janela e deixava o ar gelado entrar, resfriando o rosto. Pouco depois, sentia o sono chegar, embora também imaginasse o que sua mãe pensaria ao ver o aumento na conta de aquecimento da casa.
Anos mais tarde, pesquisas começaram a indicar que aquela percepção poderia ter algum fundamento. A temperatura do ambiente pode influenciar desde a profundidade do sono até a sensação de disposição ao acordar. Alguns cientistas vão além e defendem que as variações de temperatura podem funcionar como um sinal ambiental relevante para determinar os horários em que dormimos, além da tradicional influência da luz.
Durante muito tempo, Yetish acreditou que sua preferência por ambientes frios para dormir fosse apenas uma característica pessoal. A percepção mudou enquanto ele estudava os padrões de sono de populações que vivem em sociedades sem os mesmos recursos tecnológicos encontrados nas cidades modernas. Durante pesquisas com os Tsimane, povo indígena que vive na região amazônica da Bolívia, ele observou um comportamento que chamou a atenção.
A explicação tradicional para os horários de sono considera a exposição à luz como um dos principais sinais utilizados pelo organismo para ajustar o relógio biológico. Os Tsimane, porém, costumam dormir algumas horas depois do pôr do sol e acordar antes do nascer do sol, apesar de não utilizarem iluminação elétrica e passarem grande parte do dia ao ar livre.
Yetish e outros pesquisadores decidiram então analisar os padrões de sono de dois outros povos indígenas: os Hadza, do norte da Tanzânia, e os San, da África Austral. Os resultados indicaram que os horários de sono desses grupos também não acompanhavam exatamente os ciclos de claro e escuro. Em vez disso, os períodos de sono pareciam apresentar uma relação mais próxima com a variação da temperatura ambiente ao longo do dia.
Para Yetish, há uma possível explicação para essa relação. A luz do nascer e do pôr do sol vem diretamente da atividade solar, mas a temperatura do ambiente também é influenciada pelo Sol. Assim, os dois fatores podem funcionar simultaneamente como sinais para o organismo.
A relação entre temperatura e sono também aparece dentro do próprio corpo. Há décadas, estudos mostram que a temperatura corporal central começa a cair à medida que a pessoa se prepara para dormir.
Durante boa parte da noite, essa redução continua, podendo chegar a aproximadamente 1 °C entre o período de maior temperatura durante o dia e o ponto mais baixo durante a noite.
Isso ajuda a explicar por que ambientes muito quentes podem prejudicar o descanso. Quando a temperatura do quarto permanece elevada, algumas pessoas apresentam mais dificuldade para adormecer e podem ter um sono mais curto ou fragmentado. A situação é particularmente perceptível quando o ambiente está muito mais quente do que aquele ao qual a pessoa está acostumada.
Um estudo realizado em 2007 procurou avaliar diretamente os efeitos das variações de temperatura durante o sono. Os participantes foram submetidos a duas condições diferentes. Em uma delas, a temperatura do quarto caiu gradualmente de 27 °C para 24 °C entre 18h e 22h.
Depois, voltou lentamente a subir até 27 °C entre 3h e 7h, permanecendo nesse nível durante o dia. A intenção era reproduzir, de maneira controlada, as variações naturais de temperatura observadas ao longo da noite.
Na outra condição, os participantes permaneceram em um quarto mantido constantemente a 27 °C. Quando as pessoas dormiram sob a temperatura variável, apresentaram níveis mais elevados de um marcador associado à produção noturna de melatonina do que quando permaneceram em temperatura constante.
A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo. Sua concentração normalmente aumenta nas horas que antecedem o sono e atinge níveis elevados durante a noite, ajudando o corpo a reduzir o estado de alerta e preparar-se para dormir. Os participantes que dormiram sob temperaturas variáveis também relataram sentir-se mais descansados ao acordar.
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que o organismo humano possa ter evoluído para apresentar um sono mais profundo quando submetido às variações naturais de temperatura que ocorrem durante o entardecer e o amanhecer.
Ainda assim, não existe consenso sobre qual seria a redução ideal de temperatura para facilitar o início do sono, nem sobre a dimensão exata da influência desse fator sobre o relógio biológico.
Essa questão é particularmente importante porque o chamado ritmo circadiano coordena uma série de mudanças físicas, mentais e comportamentais que se repetem aproximadamente a cada 24 horas. Ele influencia não apenas o momento em que sentimos sono ou ficamos alertas, mas também processos como alimentação, metabolismo e variações da temperatura corporal.
Tradicionalmente, a luz é considerada o principal sinal ambiental utilizado pelo organismo para ajustar esse relógio. A temperatura, entretanto, pode ter uma participação mais complexa.
O neurocientista especializado em ritmos circadianos Russell Foster explica que o próprio ritmo circadiano é responsável pela queda da temperatura corporal que ocorre antes do sono, mas isso não significa necessariamente que a temperatura seja apenas uma consequência do relógio biológico. Ela também poderia atuar como um sinal capaz de influenciá-lo.
Experimentos realizados com animais fornecem algumas evidências nesse sentido. Pesquisadores conseguiram alterar os ritmos circadianos de diferentes espécies, incluindo moscas-das-frutas e camelos, utilizando apenas ciclos de variação de temperatura. Experimentos realizados com células humanas também mostraram que é possível modificar seus relógios internos simulando variações da temperatura corporal.
Esses resultados, porém, não significam que o mesmo mecanismo tenha sido comprovado em seres humanos vivendo normalmente. Estudos com animais e células não reproduzem necessariamente a complexidade do organismo humano. Além disso, é difícil determinar se uma temperatura mais baixa está realmente alterando o relógio circadiano ou simplesmente tornando o corpo mais confortável para dormir.
Alguns estudos realizados com seres humanos sugerem que pode existir uma influência direta. Em uma pesquisa de 1974, participantes ajustaram a temperatura do ambiente para que ela ficasse aproximadamente 6 °C mais baixa durante o sono do que enquanto estavam acordados.
Essa mudança aumentou os ciclos de sono e vigília em cerca de 23 minutos. Os pesquisadores observaram que, nesse aspecto, o efeito da temperatura sobre os ritmos circadianos poderia ser semelhante ao da luz.
Outro estudo, realizado em 2007, encontrou uma alteração na temperatura corporal dos participantes quando a temperatura ambiente era reduzida durante a noite e aumentada novamente antes do amanhecer. Um dos indicadores utilizados pelos pesquisadores foi o momento em que a temperatura corporal atingia seu ponto mais baixo, considerado uma referência para determinar em que estágio do ritmo circadiano a pessoa se encontrava.
Quando expostos às variações de temperatura, os participantes atingiram esse ponto mínimo aproximadamente uma hora mais cedo, em média, do que quando permaneceram em um ambiente com temperatura constante. O resultado levantou a possibilidade de que a temperatura do quarto também possa contribuir para o ajuste do relógio biológico.
Ainda assim, a quantidade de pesquisas sobre o assunto é pequena. Para o cronobiologista Christian Cajochen, da Universidade de Basileia, na Suíça, a temperatura pode ajudar a modular os ritmos circadianos, mas as evidências disponíveis ainda não permitem colocá-la no mesmo nível da luz. Por enquanto, segundo ele, a temperatura não pode ser considerada uma espécie de “nova luz” para o relógio biológico.
A questão também é complicada pelo fato de que o sono não depende de um único mecanismo. Um dos sistemas envolvidos é o chamado processo homeostático do sono, que faz com que a necessidade de dormir aumente quanto mais tempo permanecemos acordados. Outro é o ritmo circadiano, responsável por organizar os períodos de maior sonolência e alerta ao longo do dia.
Existe ainda um terceiro mecanismo, conhecido como sistema promotor de vigília ou de alerta. Em determinadas circunstâncias, ele pode se sobrepor aos outros dois e manter uma pessoa acordada mesmo quando ela está cansada.
É o que acontece, por exemplo, quando um alarme de incêndio desperta alguém no meio da madrugada: a necessidade de reagir ao perigo pode interromper o sono independentemente da hora.
Esses sistemas estão interligados, o que significa que os padrões observados entre os Tsimane, os San e os Hadza poderiam estar relacionados não apenas à temperatura, mas também a outros fatores fisiológicos e ambientais.
O neurocientista Jerome Siegel, que liderou as pesquisas com esses grupos indígenas, considera que a temperatura pode ser mais importante do que a luz na determinação dos horários de sono. Para ele, a observação também levanta questões sobre os efeitos do ambiente moderno sobre a saúde.
Um dos possíveis problemas estaria na tendência de manter as casas praticamente na mesma temperatura durante todo o dia e toda a noite. Ao contrário do ambiente natural, no qual a temperatura normalmente cai ao anoitecer e aumenta novamente pela manhã, sistemas modernos de aquecimento e climatização podem eliminar grande parte dessas oscilações.
Siegel relaciona essa característica do ambiente contemporâneo às diferenças observadas nos padrões de sono entre sociedades industrializadas e grupos que vivem em condições mais próximas das naturais. Entre os Tsimane e os San, por exemplo, os pesquisadores encontraram taxas muito baixas de insônia e observaram que nenhum dos dois grupos possuía sequer uma palavra específica para descrever a condição.
Isso não significa que a falta de variação de temperatura seja a causa direta dos problemas de sono nas sociedades modernas. A vida urbana envolve inúmeros fatores capazes de interferir no descanso, incluindo iluminação artificial, horários de trabalho, exposição a telas, estresse, ruído e mudanças nos hábitos sociais.
A principal conclusão das pesquisas, portanto, ainda não é que simplesmente baixar a temperatura do quarto seja capaz de “reprogramar” o relógio biológico. O que as evidências indicam é que a temperatura provavelmente participa de uma rede mais ampla de sinais que ajudam o organismo a determinar quando deve permanecer alerta e quando deve iniciar o processo de preparação para o sono.
São necessários estudos maiores para determinar qual combinação de temperatura, horário e variação térmica seria mais adequada para melhorar o descanso e, principalmente, para esclarecer até que ponto essas mudanças realmente alteram o ritmo circadiano.
Enquanto essas respostas não chegam, uma medida simples pode ser experimentada por quem percebe que dorme melhor em ambientes mais frescos: permitir uma redução moderada da temperatura do quarto durante a noite, inclusive por meio da abertura de uma janela quando as condições forem adequadas e seguras. A ideia não é transformar o quarto em um ambiente frio, mas reproduzir, dentro do possível, a queda natural de temperatura que normalmente ocorre após o anoitecer.
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Fonte:Paraná Jornal