Cães de raças gigantes, como o dogue alemão e os mastins, raramente vivem muito além dos dez anos, enquanto cães pequenos, como os chihuahuas, podem alcançar aproximadamente o dobro dessa expectativa de vida.
Embora essa diferença seja conhecida há bastante tempo, as razões pelas quais os cães de maior porte tendem a envelhecer mais rapidamente do que os menores ainda não são completamente compreendidas. Novas descobertas, porém, podem ajudar a esclarecer esse fenômeno ao investigar as alterações químicas que ocorrem no DNA dos animais ao longo da vida.
Tenha o Jornal Paraná como fonte favorita de notícias no Google. Clique aqui
A pesquisa, publicada em 8 de outubro na revista científica Science, analisou um conjunto de modificações químicas que se sobrepõem ao DNA dos cães. Esse conjunto é conhecido como metiloma e consiste, entre outras características, na distribuição de grupos metila, pequenas estruturas químicas que se ligam ao DNA. Essas modificações não alteram necessariamente a sequência genética em si, mas podem influenciar a maneira como as informações contidas nos genes são utilizadas pelas células.
Para compreender a importância desse mecanismo, é necessário considerar que o DNA armazena as instruções utilizadas pelas células para produzir proteínas, moléculas essenciais para praticamente todas as funções do organismo.
Proteínas especializadas acessam continuamente o material genético, leem suas informações e participam dos processos que permitem transformar essas instruções em novas proteínas. Os grupos metila podem funcionar como pequenos obstáculos químicos, dificultando ou impedindo o acesso a determinadas regiões do DNA e, consequentemente, influenciando a atividade dos genes.
Essas modificações fazem parte do conjunto de mecanismos chamados de marcadores epigenéticos. A epigenética estuda alterações que regulam a atividade dos genes sem necessariamente modificar a sequência do DNA. A distribuição desses marcadores muda de maneira relativamente previsível à medida que os animais envelhecem.
Por isso, pesquisadores de diferentes áreas têm utilizado essas alterações para desenvolver os chamados relógios epigenéticos, ferramentas que estimam a idade biológica de um organismo com base em padrões de modificações químicas no material genético. A idade biológica representa o estado de envelhecimento do corpo, que nem sempre corresponde exatamente à idade cronológica, calculada pelo tempo transcorrido desde o nascimento.
Os cães são particularmente úteis para pesquisas sobre envelhecimento porque seus tutores costumam acompanhar de perto a alimentação, os hábitos, as condições de vida e as mudanças de saúde dos animais.
Aproveitando essa característica, Blaise Mariner, bioinformata da Universidade Estadual do Arizona, e seus colaboradores desenvolveram relógios epigenéticos utilizando amostras de DNA obtidas do sangue de 894 cães participantes do Projeto de Envelhecimento Canino, um estudo de longo prazo conduzido pela Universidade de Washington.
As amostras permitiram analisar o envelhecimento das células imunológicas presentes no sangue. Essas células desempenham funções de defesa e circulam pelo organismo, participando da identificação e do combate a agentes infecciosos e de outros processos relacionados à manutenção da saúde.
Por estarem distribuídas pelo corpo e refletirem diferentes aspectos do funcionamento do sistema imunológico, elas podem fornecer informações úteis sobre o envelhecimento sistêmico, isto é, aquele que envolve o organismo de maneira abrangente, e não apenas um órgão ou tecido específico. Noah Snyder-Mackler, pesquisador de genômica da Universidade Estadual do Arizona e coautor do estudo, destacou a relevância dessas células para avaliar as mudanças associadas à idade.
Os pesquisadores observaram que as alterações na metilação do DNA acompanhavam de perto o envelhecimento biológico dos cães. Além disso, os animais cuja idade epigenética era superior à esperada apresentavam maior risco de morrer por qualquer causa.
Em outras palavras, o padrão de modificações químicas no DNA parecia oferecer informações relevantes sobre o estado de envelhecimento e o risco de mortalidade. Quando a equipe comparou os resultados de cães de diferentes tamanhos, também encontrou diferenças importantes na velocidade desse processo.
Segundo Snyder-Mackler, o relógio epigenético desenvolvido pelos pesquisadores indicou que os cães grandes envelheciam um pouco mais rapidamente por ano de vida do que os cães pequenos. Essa observação ajuda a explicar, ao menos parcialmente, por que animais de maior porte costumam ter uma expectativa de vida menor. O estudo, entretanto, não estabelece que todas as diferenças de longevidade entre as raças sejam causadas por um único mecanismo biológico.
Uma das alterações epigenéticas associadas ao maior tamanho corporal foi a perda de grupos metila em determinadas regiões do DNA que contêm elementos transponíveis, também conhecidos como genes saltadores. Essas sequências genéticas recebem esse nome porque podem, em determinadas circunstâncias, mudar de posição ou produzir cópias que se inserem em outras regiões do genoma. Normalmente, diferentes mecanismos celulares mantêm sua atividade sob controle, e a metilação é um dos recursos que ajudam a impedir que esses elementos se tornem excessivamente ativos.
Quando ocorre a perda de metilação nessas regiões, os elementos transponíveis podem escapar parcialmente desse controle e aumentar sua atividade. Dependendo das circunstâncias, isso pode interferir no funcionamento de outros genes, prejudicar a estabilidade do material genético e contribuir para processos inflamatórios.
A inflamação participa da defesa do organismo, mas sua persistência ou intensificação inadequada está associada a diversas alterações relacionadas ao envelhecimento. Assim, os resultados sugerem que a ativação descontrolada desses elementos genéticos pode ser um dos fatores envolvidos no envelhecimento mais rápido dos cães de grande porte.
A equipe também identificou outras mudanças na distribuição dos grupos metila. Algumas regiões do genoma que inicialmente apresentavam poucas dessas modificações tornaram-se progressivamente mais metiladas, enquanto outras, antes densamente cobertas por grupos metila, perderam parte dessas estruturas químicas.
Isso indica que o envelhecimento epigenético não consiste simplesmente em um aumento ou uma redução uniforme da metilação em todo o DNA. Trata-se de um processo complexo, no qual diferentes regiões do genoma sofrem mudanças distintas, capazes de alterar a regulação da atividade genética.
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores: conforme os cães envelheciam, suas células imunológicas pareciam se tornar mais semelhantes umas às outras em termos epigenéticos. Esse fenômeno está relacionado à hipótese de perda da identidade celular, uma ideia segundo a qual as células podem perder parte das características moleculares que as distinguem e que lhes permitem desempenhar funções especializadas.
No sistema imunológico, por exemplo, diferentes tipos de células são adaptados para tarefas específicas, como combater vírus, reconhecer células potencialmente cancerosas ou coordenar outras respostas de defesa.
Se essas células perdem parte de suas características especializadas com o passar do tempo, sua capacidade de executar determinadas funções pode ser prejudicada. Estudos anteriores sugerem que essa perda de diferenciação funcional pode contribuir para a deterioração do sistema imunológico associada à idade.
A semelhança epigenética crescente observada entre as células dos cães é compatível com essa hipótese, embora não prove, por si só, que ela seja responsável por uma redução direta da capacidade de defesa do organismo.
Os pesquisadores também levantaram a possibilidade de que a seleção artificial realizada pelos seres humanos para produzir cães cada vez maiores tenha contribuído para algumas dessas diferenças de envelhecimento. Ao longo de gerações, a reprodução seletiva favoreceu características físicas específicas, incluindo o tamanho corporal.
Segundo Snyder-Mackler, o desenvolvimento de um corpo muito grande pode exigir um investimento considerável em crescimento rápido e na manutenção dos tecidos, o que talvez entre em conflito com os recursos disponíveis para sustentar o sistema imunológico e preservar a integridade do organismo ao longo do tempo.
Essa explicação, entretanto, ainda é uma hipótese. O estudo identificou diferenças nos padrões epigenéticos relacionados ao tamanho dos cães, mas não investigou diretamente por que essas diferenças evoluíram nem demonstrou que a seleção artificial para o crescimento acelerado seja a causa delas. Outros fatores, como características genéticas próprias de cada raça, metabolismo, predisposição a doenças e condições de vida, também podem influenciar a longevidade.
A equipe pretende continuar aprimorando os relógios epigenéticos à medida que o Projeto de Envelhecimento Canino recrutar mais animais e acompanhar os participantes por períodos mais longos.
Snyder-Mackler explicou que os dados atuais conseguem esclarecer apenas uma parte das diferenças observadas entre as idades epigenéticas dos cães. Os pesquisadores querem identificar quais outros fatores explicam a variação restante, incluindo possíveis contribuições genéticas, ambientais e relacionadas ao estilo de vida.
Um dos objetivos futuros é desenvolver modelos capazes de prever com maior precisão os problemas de saúde associados ao envelhecimento. Se essas ferramentas conseguirem identificar alterações biológicas relevantes antes do aparecimento de sintomas evidentes, poderão ajudar veterinários e tutores a reconhecer riscos mais cedo, acompanhar a evolução de determinadas condições e tomar decisões mais informadas sobre os cuidados com os animais. Ainda assim, seria necessário validar esses modelos em diferentes raças e populações antes de utilizá-los como instrumentos confiáveis de previsão clínica.
Os resultados também podem contribuir para a compreensão do envelhecimento humano. Cães e seres humanos compartilham algumas doenças relacionadas à idade e, sobretudo, convivem frequentemente nos mesmos ambientes. Isso significa que ambos podem estar expostos a fatores ambientais semelhantes, como poluentes, substâncias químicas presentes no cotidiano, condições habitacionais e determinados hábitos de vida.
Ao estudar, em nível molecular, como essas exposições afetam a saúde e o envelhecimento dos cães, os pesquisadores esperam obter informações que também possam ser relevantes para as pessoas que vivem nos mesmos ambientes.
Essa possibilidade não significa que os mecanismos de envelhecimento sejam idênticos nas duas espécies, nem que todas as conclusões obtidas em cães possam ser diretamente aplicadas aos seres humanos. Entretanto, o acompanhamento de animais que compartilham o cotidiano das pessoas oferece uma oportunidade valiosa para investigar a interação entre genética, ambiente e envelhecimento.
Como os cães recebem cuidados frequentes e costumam ser acompanhados por seus tutores durante muitos anos, também é possível reunir grandes conjuntos de informações sobre sua saúde, seus hábitos e suas mudanças biológicas ao longo da vida, tornando-os importantes aliados na pesquisa sobre os processos que levam os organismos a envelhecer.
Leia outras matérias do Jornal Paraná e do parceiro Blog do Tupan
Suspeito de matar “ex” a facadas em Jaguapitã é preso após acidente
Coritiba pode afundar o Internacional no Z-4 e ficar perto da vaga na Série A de 2027
Região Metropolitana de Curitiba concentra quase metade do Rebanho de búfalos do Paraná
Quais foram os impérios mais duradouros?
Pesquisadores criam programa que mostra a evolução do universo
Biblioteca abre inscrições para noite especial com crianças em novembro
Exercícios que vão te deixar com a perna toda malhada
Horóscopo de três de novembro de 2026
Horóscopo Chinês de três de novembro de 2026
Óbitos de Curitiba de dois de novembro de 2026
Deltan Dallagnol pede cabeça de Lula e Alckmin
Sem dinheiro em caixa, governo Ratinho Junior pode suspender contratos
Árvores caem em Maringá durante tempestade
Audiência Pública recebe sugestões para o Plano Diretor
Ratinho Junior troca secretário indicado por Cristina Graeml
“Nenhum aluno ficará longe da escola”, garante secretário de Educação
Orquestra Sem Fim sai da tumba e se apresenta em Curitiba nesta terça-feira
Fonte:Paraná Jornal