O uso frequente do smartphone pode provocar mais impactos físicos no corpo do que muitas pessoas percebem. Não se trata apenas do tempo gasto nas redes sociais ou dos efeitos do excesso de informação sobre a saúde mental.
A própria maneira como o aparelho é segurado, a postura adotada para olhar a tela e o tempo que os olhos permanecem concentrados no dispositivo podem contribuir, ao longo dos anos, para o surgimento de dores e alterações posturais.
Médicos passaram a usar informalmente a expressão “corpo de celular” para descrever um conjunto de mudanças físicas associado ao hábito prolongado de curvar o pescoço, inclinar a cabeça e manter o corpo em posições inadequadas enquanto se utiliza o smartphone. Um relatório de 2025 apontou que os norte-americanos passam, em média, 5 horas e 16 minutos por dia usando o celular.
Com uma exposição tão prolongada, não é surpreendente que algumas pessoas desenvolvam desconforto em diferentes regiões do corpo. Pescoço, ombros, polegares, olhos, costas e cotovelos estão entre as áreas que podem ser afetadas. Em muitos casos, as dores podem ser reduzidas ou prevenidas, mas isso depende de reconhecer como o aparelho está sendo utilizado e modificar hábitos que sobrecarregam o organismo.
Um dos problemas mais conhecidos é o chamado “pescoço de texto”, expressão usada para descrever a sobrecarga provocada pela postura adotada ao olhar para o celular durante longos períodos. Segurar o aparelho à frente do corpo e inclinar a cabeça para baixo aumenta a exigência sobre a musculatura do pescoço e sobre a coluna. Quando a pessoa permanece curvada repetidamente, essa sobrecarga pode contribuir para dores e desconforto que, ao longo de anos, podem se tornar recorrentes.
Segundo os médicos citados no material, manter uma postura muito inclinada pode aumentar consideravelmente a pressão exercida sobre a coluna, chegando ao equivalente a cerca de 23 kg em determinadas posições. O problema não está necessariamente em olhar para baixo ocasionalmente, mas em permanecer nessa posição por períodos prolongados e repetir o comportamento diariamente.
Os olhos também podem sofrer com o uso prolongado de smartphones. Permanecer muito tempo concentrado em uma tela pode provocar cansaço visual e desconforto, embora a relação entre telas e problemas de visão seja mais complexa do que simplesmente atribuir a elas toda a responsabilidade. Pesquisas também apontam para a importância do tempo passado ao ar livre, especialmente no desenvolvimento da miopia.
Algumas evidências sugerem que permanecer cerca de duas horas por dia em ambientes externos pode ajudar a reduzir o risco de desenvolver problemas relacionados à miopia. Dessa forma, afastar-se do smartphone e realizar outras atividades pode não apenas diminuir a exposição à tela, mas também favorecer hábitos mais saudáveis para os olhos e contribuir para o bem-estar geral.
A postura é outro aspecto importante. Diferentemente de um computador, cuja posição normalmente permanece relativamente fixa, o smartphone pode ser utilizado praticamente em qualquer lugar e de inúmeras maneiras. A pessoa pode apoiar-se sobre uma mesa enquanto olha para baixo, permanecer curvada em uma cadeira ou até segurar o aparelho acima do rosto enquanto está deitada.
Essa liberdade de posicionamento facilita a adoção de posturas inadequadas sem que o usuário perceba. Com o tempo, a repetição dessas posições pode contribuir para dores musculares e sobrecarga das articulações.
Algumas medidas simples podem ajudar a reduzir esses efeitos. Uma delas é manter o smartphone próximo à altura dos olhos ou ligeiramente acima dela, diminuindo a necessidade de inclinar a cabeça para baixo. Também podem ser utilizados exercícios de mobilidade e fortalecimento, além de massagens ou rolos de automassagem para aliviar a tensão na região do pescoço e das costas.
O exercício conhecido como retração do queixo, por exemplo, consiste em levar suavemente o queixo para trás, sem incliná-lo para baixo, ajudando a trabalhar a postura cervical e podendo aliviar desconfortos associados ao chamado “pescoço tecnológico”. Esses exercícios devem ser realizados sem provocar dor e não substituem avaliação profissional quando os sintomas são persistentes ou intensos.
Uma das maneiras mais simples de evitar o chamado “corpo de celular” é reduzir o tempo de uso do aparelho e fazer pausas regulares. Em vez de permanecer horas olhando continuamente para a tela, levantar-se, caminhar, olhar para longe e realizar outras atividades permite variar a postura e diminuir a sobrecarga física.
Para quem percebe dificuldade em controlar o tempo de uso do smartphone, recursos e dispositivos destinados a limitar ou dificultar o acesso contínuo ao aparelho também podem ajudar a estabelecer períodos maiores sem a tela.
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Fonte:Paraná Jornal

