O consumo de carne bovina no Brasil caiu em 2026, depois de dois anos de alta. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mostram que a disponibilidade por habitante passou de 36,1 kg em 2025 para 33,8 kg neste ano, uma redução de 6,6%.
Segundo a Conab, a retração no consumo per capita desde 2019 resulta da combinação de fatores econômicos e produtivos, do aumento dos preços da carne provocado pela expansão das exportações, impulsionadas pela demanda chinesa, e da desvalorização cambial. A companhia afirma que os ciclos pecuários afetam temporariamente a oferta de animais e os preços, e que, com a carne bovina mais cara, os consumidores tendem a substituir o produto por proteínas de menor custo, como frango, ovos e carne suína. Ainda conforme o órgão, a queda está ligada principalmente às condições de oferta e comercialização, especialmente à demanda externa, e não necessariamente a uma mudança estrutural na renda ou nas preferências alimentares da população.
Para André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), a menor disponibilidade de carne bovina indica um mercado interno com oferta mais restrita em 2026, movimento relacionado principalmente à reversão do ciclo pecuário. Ele explica que, após um período de abates elevados, inclusive de fêmeas, os produtores começam a reter mais matrizes para recompor os rebanhos, o que reduz a quantidade de animais disponíveis para abate no curto prazo, embora seja importante para recuperar a capacidade produtiva nos próximos anos. O economista acrescenta que o mercado externo também influencia a disponibilidade, pois as exportações disputam espaço com o abastecimento doméstico, e que, mesmo com produção nacional elevada, a quantidade destinada ao consumidor brasileiro pode diminuir.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de setembro apontou alta nos preços da carne bovina pelo segundo mês consecutivo. Entre os cortes pesquisados, o filé-mignon registrou o maior aumento, de 4,95%, seguido do lagarto redondo, com alta de 3,25%, e do cupim, que subiu 3,17%.
André Braz avalia que a trajetória dos preços dependerá de fatores como a renda das famílias, o ritmo das exportações, os custos de produção e a concorrência com proteínas alternativas, especialmente frango e carne suína. Para as famílias de menor renda, a consequência mais importante é a possível substituição da carne bovina por proteínas relativamente mais baratas, movimento que pode limitar parte dos reajustes, mas também revela como a restrição de oferta afeta o poder de compra e modifica os hábitos de consumo.