Fragmento de tratado de paz mais antigo do mundo é encontrado debaixo de edifício

A descoberta de um fragmento de aproximadamente 3.400 anos de um dos mais antigos tratados de paz.

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A descoberta de um fragmento de aproximadamente 3.400 anos de um dos mais antigos tratados de paz conhecidos da história foi anunciada pelo Ministério da Cultura e do Turismo da Turquia. O fragmento pertence ao chamado Tratado de Kadesh, um acordo firmado por volta de 1269 a.C. entre o faraó egípcio Ramsés II e o rei hitita Hattusili III. Outras partes do tratado já haviam sido encontradas anteriormente, mas o novo fragmento foi localizado durante escavações arqueológicas em Hattusha, antiga capital do Império Hitita, na região centro-norte da atual Turquia.

Segundo o ministro turco da Cultura e do Turismo, Mehmet Nuri Ersoy, a descoberta representa a preservação de registros de um acordo de paz com milhares de anos de história. O fragmento recém-encontrado é uma pequena tabuleta de argila com escrita cuneiforme e contém parte do texto relacionado ao tratamento de refugiados. Para os pesquisadores, esse conteúdo também revela aspectos importantes sobre a maneira como questões políticas, diplomáticas e humanitárias eram tratadas entre grandes Estados da Idade do Bronze.

O fragmento foi encontrado em um edifício da antiga Hattusha, cidade que funcionava como centro político do Império Hitita. Os hititas dominaram grande parte da Anatólia central entre aproximadamente 1650 e 1200 a.C., durante a Idade do Bronze. As escavações realizadas na região já revelaram numerosos documentos diplomáticos, muitos deles escritos em acádio, uma das mais antigas línguas semíticas conhecidas por meio de registros escritos. Entre esses documentos estão outros fragmentos do próprio Tratado de Kadesh.

O acordo foi firmado por volta de 1269 a.C., com o objetivo de formalizar o fim de um longo período de conflitos entre o Egito e o Império Hitita. Por essa razão, o documento é tradicionalmente considerado o mais antigo tratado de paz conhecido que chegou até os dias atuais em forma documental. Embora seja conhecido como Tratado de Kadesh, o texto não descreve propriamente a famosa Batalha de Kadesh, que havia ocorrido alguns anos antes. Por isso, o documento também é chamado de Tratado de Paz Egípcio-Hitita, Tratado Eterno ou Tratado de Prata.

O acordo encerrou formalmente um conflito que, de acordo com a tradição histórica, envolveu aproximadamente dois séculos de disputas entre as duas potências por territórios e influência no Mediterrâneo oriental. O tratado estabeleceu uma espécie de distensão militar entre Ramsés II e Hattusili III e procurou criar uma relação permanente de paz e cooperação entre os dois reinos. O texto apresenta os dois governantes como irmãos e afirma que o Egito e o território de Hatti deveriam permanecer para sempre em estado de paz e fraternidade.

Além de estabelecer o fim das hostilidades, o tratado apresentava compromissos que iam além de uma simples declaração de paz. Entre suas disposições estava a promessa de prestar auxílio ao outro reino caso ele fosse invadido, além de regras relacionadas à devolução de pessoas que fugissem de um dos territórios para o outro. O documento determinava, por exemplo, que um refugiado egípcio encontrado em Hattusha deveria ser devolvido ao Egito, enquanto um refugiado hitita encontrado no Egito deveria retornar a Hattusha. Naquele contexto, fugir do próprio reino era considerado uma infração.

Ao mesmo tempo, o tratado estabelecia uma importante restrição sobre a maneira como essas pessoas deveriam ser tratadas. Embora os refugiados devessem ser devolvidos às suas terras de origem, o texto proibia que fossem submetidos a mutilações ou que suas famílias e propriedades fossem destruídas. O documento determina que seus olhos, línguas, ouvidos e pés não fossem mutilados e que suas casas, suas esposas e seus filhos não fossem destruídos. Parte desse trecho aparece justamente no fragmento de escrita cuneiforme encontrado durante as escavações recentes. A combinação entre a obrigação de extraditar os refugiados e a proibição de punições violentas demonstra que o tratado procurava estabelecer regras específicas para situações que poderiam gerar novos conflitos entre os dois Estados.

O Tratado de Kadesh foi preservado por meio de versões registradas em diferentes formas e locais. No início do século XIX, arqueólogos identificaram uma versão escrita em hieróglifos nas paredes de um templo dedicado a Ramsés II em Tebas, na região da atual Luxor, no Egito. Já os fragmentos da versão escrita em acádio com caracteres cuneiformes começaram a ser identificados em Hattusha no início do século XX. A existência de versões em diferentes sistemas de escrita também reflete a importância diplomática do acordo e a necessidade de que seu conteúdo fosse compreendido e preservado pelos dois impérios.

A descoberta do novo fragmento pode contribuir para a reconstrução de partes ainda incompletas do tratado. Como as escavações arqueológicas em Hattusha continuam, os pesquisadores esperam encontrar outros fragmentos que possam complementar o texto conhecido e fornecer informações adicionais sobre as relações entre o Egito e o Império Hitita.

A importância histórica do documento ultrapassa o simples fato de registrar o fim de uma guerra antiga. O tratado é um dos primeiros exemplos conhecidos de um acordo diplomático detalhado entre grandes potências, estabelecendo compromissos de não agressão, cooperação militar, manutenção da paz, devolução de fugitivos e proteção contra determinadas formas de punição. Por esse motivo, ele é frequentemente lembrado como um antecedente histórico de princípios presentes em tratados diplomáticos muito posteriores.

Atualmente, uma réplica de cobre do Tratado de Kadesh está exposta no edifício das Conferências das Nações Unidas, em Nova York. O documento é associado a princípios como amizade permanente, manutenção da paz, respeito à integridade territorial, não agressão, devolução de pessoas procuradas e auxílio mútuo. Embora as instituições internacionais modernas sejam muito diferentes das estruturas políticas da Idade do Bronze, o tratado é frequentemente apresentado como um exemplo antigo de como acordos formais poderiam ser utilizados para substituir a guerra por compromissos diplomáticos entre Estados rivais.

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Fonte:Paraná Jornal

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